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Dica 19: Mandar as pessoas para o inferno

José SaramagoCerto dia o Grande Juiz, cansado das ofensas que eram dirigidas a ele, aos de sua classe e às mães dos tais,  resolveu tirar férias do posto. Mas como fazê-lo, já que a função de sentenciador celestial supremo não poderia ficar vazia? Pensou, pensou, repensou.

Depois de muita análise, resolveu que o substituto temporário para o martelo supremo seria o povo escolhido: os cristãos protestantes (ou algo que o valha). Entregou o martelinho a Lutero e pode enfim gozar as férias que tanto merecia – afinal, descanso antes desse, só se tem notícia dum que fez após o sétimo dia da criação.

Pois bem, não sabemos se o Juiz voltou de suas férias, mas temos certeza que os cristãos aprenderam a manejar com destreza o martelo que manda as pessoas ao céu ou ao inferno.

O Cristianismo Xique, supremo Vade Mecum do crente, dá as dicas para que você não erre na hora da sentença, porque, como se sabe, um julgamento errado pode condenar uma pessoa ao sofrimento eterno numa única martelada. Vamos aos casos de condenação mais comum, nesse nosso guia chamado Mandando Pessoas para o Inferno for Dummies:

  1. Leila LopesSuicídio de famosos: único caso de condenação instantânea. Não há qualquer possibilidade de apelação ao Supremo Tribunal Celestial. Leila Lopes, caso bem recente, é um exemplo da aplicação desse tipo de pena. Para casos de suicídio, não hesite em bater o martelo e mandar a pessoa para o caldeirão de Mefistófeles sem dó nem piedade. Para terminar sua sentença com estilo, mencione em alto e bom som: “só Deus tem o direito de tirar a vida” (claro que isso não se aplica ao caso dos nossos irmãos do Cinturão da Bíblia, lá nos EUA, que tem aval celestial para matar alguns criminosos perigosos).
  2. Ateus: estes são, segundo o código criminal cristão, aqueles que confessam o crime e que se entregam à condenação sem dar muito trabalho. Dúvidas sobre o que fazer com eles?
  3. Membros de outras religiões: mesmo caso acima.
  4. Arbitrariedade: este critério varia de acordo com a linha cristã que você segue. Adventistas, calvinistas, pentecostais, católicos: cada um aplique a pena conforme a respectiva teologia.

Com este guia, você vai acertar sempre nos casos de condenação eterna mais comuns. Divirta-se.

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Dica 12: English is our official language

iGospel Cada povo adota uma língua oficial, geralmente imposta por conquistadores, colonizadores ou necessidades comerciais. Com a nação evangélica, que se enquadra no quadro das exigências mercantis, a história não poderia ser diferente.

Embora não tenha sido conquistada por nenhum país ao modo tradicional, que inclui navegações e supostos descobrimentos, a nação evangélica brasileira acabou falling in love de um modo bem peculiar por aquele exemplar país atualmente aos cuidados de Barack Obama.

Além dos costumes comerciais americanos, seguidos à risca pelo povo de Deus separado no século XVI, adotou-se entre a irmandade os princípios de administração de igrejas e, como tais práticas acompanham seus respectivos documentos, acolhemos também a língua oficial da missionária nação de Pocahontas.

As marcas evidentes da influência da Língua Inglesa, propagada entre nós graças a Conde de Sarzedas, passeiam por aqui com tanta naturalidade que até esquecemos de que são mero e gentil empréstimo.

Contudo, não se engane pensando que a língua anglo-saxã pode ser usada a torto e a direito. Vamos ao Manual de Estilo Cristianismo Xique for using the official language of God’s people:

  • Mescle a sua língua oficial (o Português, caso não lembre) com a língua emprestada da irmandade do norte. Exemplos: Avivamento’s Day, Love é um movimento, Our heart bate por ti.
  • O nome do evento da sua church deve ser em inglês. Exemplos: Awakening in Assembleia de Deus do Brooklin, 1st Congress of Revelation in Pindamonhangaba,  3rd Young Force of Batist Church in BH.
  • Criou um produto? Não se esqueça de marcá-lo com a língua dos negócios celestiais.
  • Quebre os tabus e use o nome da sua igreja em inglês (tradução é pra losers). Exemplo: Calvary Chapel em Botafogo (onde meu amigo Eduardo Mano se apresentará) ou Vineyard Capital.
  • Culto em inglês é um diferencial mercadológico ao qual a sua comunidade deve ficar atenta. Libras é o básico de qualquer igrejinha de bairro. Inove trazendo o sacro idioma para as suas reuniões e atraia um público mais cool e genero$o, se me entende.
  • Versões de músicas do Hillsong United é o básico de qualquer ministério/grupo/banda de louvor. Se você ainda não canta nenhuma (tsc,tsc,tsc) você deve pegar “emprestado” alguma bem metrificada versão tupiniquim inspirada nos cancioneiros australianos.

Todos os dias ore agradecendo à Igreja Renascer e aos exemplares líderes por terem nos apresentado à esta cultura evangélica americanizada que tanto nos apraz e preenche. Só para refrescar a memória, eis uma listinha de termos provindos da mente astuta e criativa de Apóstolo Eu Te Amo Estevam e de sua esposa Bispa Linda Hernandes: Gospel Records, SOS da Vida, Praise Machine, Renascer Praise, Gospel FM, Manchete Gospel, Gospel Clip, Rede Gospel, iGospel. Ufa!

Claro que a habilidade linguística desse casal não se limita ao domínio do English. É preciso lembrar que eles inovaram até na inclusão de novas palavras à nossa língua, como é o caso de “bispa”, nunca dicionarizada. É deles também a especial habilidade de resignificar antigos termos como “apóstolo”. Mas isto é assunto para outra dica.

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Dica 9: Manipular números

R7 suspeito de manipular números Uma técnica amplamente aperfeiçoada entre os cristãos é a manipulação de números e estatísticas. Hoje o Cristianismo Xique ensinará esta arte para que você saia do infernal vermelho e alcance o paradisíaco azul.

No caso de eventos:

Nos eventos cristãos achamos a melhor oportunidade para ‘trabalhar’ com os números de modo criativo. Se as tais sacras agremiações forem beneficentes, a arrecadação de alimentos divulgada deverá ultrapassar a quantidade do estoque da Companhia Brasileira de Distribuição, vulgarmente conhecida como “Grupo Pão de Açúcar”. Se não forem beneficentes, o destaque deverá ser dado ao numeroso grupo de cristãos que compareceu ao local. Para a digna propagação das boas velhas novas, recursos não deverão ser poupados: imagens aéreas, fotografias, depoimentos e venda de camisetas com o dizer “Eu fui na/no [substitua com o nome do evento]”.

No caso dos dízimos e ofertas:

Para fim de incentivo ao aumento das doações, uma estratégia oposta deverá ser usada para dízimos e ofertas: minimização dos números. O pastor deverá destacar a membresia de 1000 e poucas pessoas e depois mostrar a ‘insignificante’ quantia doada pelos insensíveis sócios participantes da comunidade. Use o datashow para a exibição de planilhas confusas sobre os gastos mensais, pelos quais a comunidade deverá ser culpada, e depois mostre uma simulação, com gráficos bem elaborados, sobre a previsão de arrecadação que a igreja alcançaria se os membros contribuíssem com os obrigatórios 10% mensais que é do Senhor por direito.

No caso de vendagem de discos:

É meio difícil manipular estes números, mas para tudo há uma solução. Mesmo que o setor de música gospel fature bilhões, a classe injustiçada das gravadoras deverá reclamar seus direitos alegando que a venda mensal de 400 mil cópias da Aline Barros seria superior, se os cristãos não fossem levados pelo sujo terrível e abominável pecado da pirataria, que garantirá lugar no inferno para 90% dos cristãos desonestos dessa nação que negam o salário digno a trabalhadores como Arolde de Oliveira, sua filha de voz singular, Oficina G3, Silas Malafaia e Diante do Trono.

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Dica 6: Teologia gringa é melhor (Parte 1)

Joyce Meyer - Eat Cookies Buy Shoes Uma das marcas de um bom cristão está no conteúdo cultural que ele consome. Você nunca deve achar um filme bom, se neste filme não houver alguma metáfora implícita da crucificação. Às vezes, é suficiente que este filme tenha na trilha sonora algum nome famoso da CCM. Vale Michael W Smith, Amy Grant ou, entre os mais modernos, Switchfoot.

Mas não se engane, o que há de melhor da indústria cultural, o mais refinado da irmandade, está na teologia dos gringos, e não é qualquer gringo: tem que ser americano. A nação estadunidense produz hoje a nata do conhecimento teológico que tanto beneficia a nossa latina nação. E para não errar nos comentários pontuais da escola dominical, aqui vai uma listinha de todos os nomes que você precisa saber pra fazer bonito nas suas colocações:

  • Max Lucado: o mais amado dos escritores cristãos americanos. Foi um grande promotor da guerra americana ao “terror” e apoiador do piedoso presidente George W. Bush nas sensatas decisões do estadista. A literatura deste ícone habita uma fronteira entre a autoajuda e a literatura cristã, sendo que a primeira ideologia predomina. Em seus livros, Lucado explora as metáforas de modo singular: um pedaço de madeira pode representar a vida eterna e um pézinho de coentro a multiforme graça.
  • Benny Hinn (exceção não-americana): pouco se sabe sobre a literatura desse Elias contemporâneo. Contudo, Bom dia Espírito Santo, obra prima, é um livro que será citado nas rodinhas de reuniões caseiras, então é bom tê-lo na ponta da língua. Além de ser muito popular, este título pode ser comprado em qualquer lugar, inclusive nos catálogos da sua revendedora Avon. Este pastor (ou entidade inrotulável) não se limita à atividades literárias, mas exploraremos suas habilidades sobrenaturais em outros comentários desse espaço futuramente.
  • Joyce Mayer: diva da teologia gringa com tudo o que lhe é particular hiperbolizado com bom gosto e brio. Meyer é hoje uma das entidades cristãs mais prolixas: os numerosos lançamentos de livro dessa senhora supera até mesmo a quantidade de posts que aparecem no Pavablog diariamente. De dona de casa frustrada e de pouca beleza, Joyce Meyer tornou-se uma espécie de Paulo Coelho gospel que habita as prateleiras das livrarias cristãs de modo onipresente. Sorte nossa, né? E aguardem: o novo livro dela já está a caminho de nossas santas livrarias da Conde de Sarzedas: Eat the cookie, buy the shoes (Coma o biscotinho, compre os sapatos) está no forno para encher nossos olhos da santa teologia Meyerana.

Continuaremos em breve esta série com grandes nomes da teologia norteamericana contemporânea pra deixar você por dentro das novas tendências evangélicas que assolam presenteiam a mente dos pastores brasileiros.

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Dica 4: Contar testemunho

TESTEMUNHO RODOLFO A arte da oratória esteve sempre entre os cristãos como um advento que só pode ser explicado recorrendo-se a fenômenos sobrenaturais. Hoje o Cristianismo Xique irá ensinar ao querido leitor como é que se explora a arte de contar testemunho para que você ‘dê o que falar’ nos cultos de quarta-feira, já que aos domingos, devido a profusão de pastores e convidados de honra, não há tempo para que se divulgue as novas que o Senhor anda a fazer na sua vida.

O testemunho, como várias coisas nas nossas igrejas, deve seguir alguns passos que podem ser melhorados de acordo com a criatividade do executor e a disposição dos ouvintes da congregação.

O primeiro momento do relato deve se limitar exclusivamente à auto-depreciação. Dúvidas sobre como começar? Aqui vai um empurrãozinho: ‘Quando eu era do mundo…’

  1. eu fumava dez pedras de crack por minuto
  2. eu traia meu marido com 10 homens diferentes
  3. eu traia minha mulher com 10 pessoas diferentes
  4. eu bebia o dia inteiro
  5. assistia novela das 8
  6. roubava no Vale do Anhangabaú
  7. matei 10 pessoas em briga de bar
  8. suicidava todo dia
  9. tinha uma banda de rock satanista que fazia covers do Rosa de Saron

Não sei se todos notaram algo comum nas frases acima: todas elas hiperbolizam a situação. Alguns cristãos mais contidos e críticos devem estar a pensar que isso não está certo e os dados não chegam nem a fazer sentido, tachando tão bela iniciativa como ‘mentirosa’. Vá de retro, críticos! Se for para glorificar, você pode inventar.

O segundo momento narrativo deve explicar que a irmã Joanete, ou o Thiago do grupo dos jovens, te entregou um folheto e te chamou para ir no culto, marco zero de sua vida, quando TUDO mudou.

A partir de agora, instante final do enredo de sua conversão, use sua criatividade: elogie o pastor, lembre de cultos marcantes, fale de como você não trai mais seu marido/esposa, convide a igreja para entoar um cântico espiritual. Não olhe para relógio: deixe o agir fluir.

Leitores interessados devem estar a se perguntar: e se eu não tiver um bom testemunho? Não se aflija, querida/querido! Lembre da sua máquina de lavar que não funcionava num dia e que depois voltou a funcionar milagrosamente. Tenha sempre algo preparado para os cultos dos dias úteis, pois essa será a sua chance de brilhar na comunidade.

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Dica 3: Comprar na Conde Sarzedas

A Rua Conde de Sarzedas é um protótipo de paraíso na Terra para todo o cristão. Se o sonho evangélico de eleger Anthony Garotinho tivesse dado em alguma coisa, poderíamos imaginar o Brasil como uma ampliação desse reduto de quinquilharia cristã.

Ir à Conde de Sarzedas envolve todo um ritual que será devidamente explicado por esse que vos escreve:

  1. Você precisa ter um conhecido que trabalha na Conde. Pode ser irmão da igreja, amigo, parente, não importa. Este será um recurso para que você barganhe aquele supercd novo do Diante do Trono ou do Renascer Praise que foi lançado na última semana
  2. Visite todas as lojas que puder, mesmo sabendo que você não vai comprar nada. Isso é um jeito de conhecer o mais novo lançamento da Bíblia comentada por algum amigo de Silas Malafaia mais sábio do mundo
  3. Compre pelo menos uma camiseta com alguma mensagem cristã, mesmo sabendo que isso não estava no seu orçamento inicial. Para não errar no culto de domingo à noite: compre alguma daquela formiga assexuada Smilinguido ou alguma que imite a farda do exército com mensagens dizendo que você guerreia por alguma causa do Reino. Nada de discrição nessa hora: quanto maior a estampa, melhor
  4. Prove as gravatinhas: as bancas de gravatas na Conde de Sarzedas são tão abundantes quanto aqueles baciões de linguiça e carne a céu aberto no Largo 13. Você deve prová-las logo no início da Rua, puxando algum assunto com o irmão da loja e comprando a mais baratinha de lembrança para o seu pastor
  5. Prepare-se para ser abordado por alguma profecia: do nada pode pular alguém de alguma loja falando em língua estranhíssimas dizendo que Deus mandou ela dizer alguma coisa pra você. É bom se hidratar porque essas abordagens proféticas costumam demorar pra terminar e, geralmente, acontecem no período da tarde, quando você estará com um monte de bugigangas em sacolas gigantescas num sol de quase 40º
  6. Se você não sabe a música do Régis Danese pedindo pra que alguém entre na casa dele, essa será a oportunidade ideal para decorar tão magnífica letra, já que essa é um trilha sonora onipresente ao longo dessa rua

Ouvindo e aplicando essas dicas você tem tudo pra se dar bem num dia superdivertido de compras na Rua Conde de Sarzedas.

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