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Dica 16: Tentar virar rico

A Bacana Bispa Sônia do Verticontes Os cristãos são a gente escolhida do Soberano para habitar terríveis anos neste planeta asqueroso, assolado pelas doenças, pelas pragas e (arrgh!) pela pobreza.

As almas do povo de Deus, acostumadas ao limbo celestial onde descansavam tranquilamente, simplesmente não suportam um lugar tão imperfeito como o planeta Terra. O único remédio para tornar menos dura a peregrinação dos santos está na posse de bens materiais terrenos e passageiros. O Cristianismo Xique, na sua infinita boa vontade, traz as dicas para esta gente maltratada provar, por meio do dinheiro, as riquezas celestiais ainda nesse corpinho insurreto.

O caminho mais fácil para obter as riquezas que são suas por direito natural – ou melhor, celestial – é a doação. E não é qualquer doação: exclua da sua lista de boas ações monetárias instituições como a Visão Mundial. O negócio mesmo é doar para homens de poder, como Silas Malafaia e R.R. Soares. Segundo Malafaia, os rendimentos no Banco da Nova Jerusalém podem ultrapassar sete vezes o montante inicialmente depositado.

Mas, se os procedimentos de doação se mostrarem ineficazes, você poderá exigir do próprio Deus (olha que Xique!) a restituição. A restituição é um princípio teológico incialmente propagado em nossas terras por um Elias contemporâneo chamado Marcus Gregório. Depois de comprovados sucessos da fórmula de apelação ao próprio Senhor dos Exércitos em Nova Iguaçu, o ensino da restituição divina começou a ser espalhado pelas demais igrejas da nossa nação. E o mais legal é que a tal devolução “dos anos que foram embora e dos planos que se perderam” não levam em conta se você foi pobre a vida toda: quando restituído, você vai virar rico e ponto.

Outro meio de ficar rico é escolhendo uma carreira de sucesso: medicina, veterinária, direito. Mas, como você é escolhido do deus Vivo, você nem vai precisar estudar para passar no vestibular: é só orar que Jeová enviará um anjo para gabaritar a sua prova no dia do FUVEST, e te colocar na frente de um monte de losers que estudaram o ano todinho; pois, fazendo assim Ele honrará o nome d’Ele por meio da sua vitória.

Se todos os conselhos acima falharem, você ainda pode usar o seu cartão de crédito e apelar para que Jesus, milagrosamente, pague a sua fatura.

É importante que, quando você já estiver rico, você ore pela gente mais pobre desse mundo, que só está nessa situação porque não servem ao seu deus. Não esqueça de interceder pelas crianças da África e de pagar o seu carnezinho missionário com as caríssimas mensalidades de três reais para que estas pobres almas africanas ganhem ao menos um soro fisiológico. Tenha sempre em mente que aquela gente só está nessa situação porque ainda não reconheceu Jesus como salvador, ou seja, é tudo culpa deles e três reais já é muito dinheiro para auxilio humanitário para pagãos.

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Dica 14: Ter cuidado com o serviçal demoníaco que atende por “Coelhinho da Páscoa”

Os cristãos: atalaias do próprio Deus, comandados a vigiar este mundo em busca de sinais sutis das artimanhas de Belzebu que objetivam o envio de milhões de almas descuidadas para o inferno.
 
Não descansam, não dormem e, às vezes, não comem em prol da magnífica e benfazeja missão de fiscalizar os vandalismos de Lúcifer nessa terra.

Atentos ao insubstituível chamado, o povo de Deus precisa abrir os olhos e fechar a boca nesse período do ano, pois é no primeiro quadrimestre que o Diabo usa a sua arma mais vil contra o exército de Cristo: o coelhinho.
 
Provindo de tradições pagãs, com alguma ligação remota àquela gente de Moisés, o culto ao roedor de olhos vermelhos e pelo branquinho tem se espalhado como uma praga pelas escolas dessa nação, aprisionando em correntes malignas a mente de nossas outrora inocentes criancinhas.

O Cristianismo Xique recomenda aos pastores, apóstolos, bispos, ou lideranças de nomenclatura inovadora com função correspondente, uma ação de proibição do consumo desse desprezível alimento cuja logística está aos cuidados do animal de pelo branco. Como já se nota pela própria cor desse composto alimentício a base de cacau, tal substância é a simbologia viva de toda a sujeira que é o lamaçal de pecado dessa gente que habita este planeta abominável.

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Dica 12: English is our official language

iGospel Cada povo adota uma língua oficial, geralmente imposta por conquistadores, colonizadores ou necessidades comerciais. Com a nação evangélica, que se enquadra no quadro das exigências mercantis, a história não poderia ser diferente.

Embora não tenha sido conquistada por nenhum país ao modo tradicional, que inclui navegações e supostos descobrimentos, a nação evangélica brasileira acabou falling in love de um modo bem peculiar por aquele exemplar país atualmente aos cuidados de Barack Obama.

Além dos costumes comerciais americanos, seguidos à risca pelo povo de Deus separado no século XVI, adotou-se entre a irmandade os princípios de administração de igrejas e, como tais práticas acompanham seus respectivos documentos, acolhemos também a língua oficial da missionária nação de Pocahontas.

As marcas evidentes da influência da Língua Inglesa, propagada entre nós graças a Conde de Sarzedas, passeiam por aqui com tanta naturalidade que até esquecemos de que são mero e gentil empréstimo.

Contudo, não se engane pensando que a língua anglo-saxã pode ser usada a torto e a direito. Vamos ao Manual de Estilo Cristianismo Xique for using the official language of God’s people:

  • Mescle a sua língua oficial (o Português, caso não lembre) com a língua emprestada da irmandade do norte. Exemplos: Avivamento’s Day, Love é um movimento, Our heart bate por ti.
  • O nome do evento da sua church deve ser em inglês. Exemplos: Awakening in Assembleia de Deus do Brooklin, 1st Congress of Revelation in Pindamonhangaba,  3rd Young Force of Batist Church in BH.
  • Criou um produto? Não se esqueça de marcá-lo com a língua dos negócios celestiais.
  • Quebre os tabus e use o nome da sua igreja em inglês (tradução é pra losers). Exemplo: Calvary Chapel em Botafogo (onde meu amigo Eduardo Mano se apresentará) ou Vineyard Capital.
  • Culto em inglês é um diferencial mercadológico ao qual a sua comunidade deve ficar atenta. Libras é o básico de qualquer igrejinha de bairro. Inove trazendo o sacro idioma para as suas reuniões e atraia um público mais cool e genero$o, se me entende.
  • Versões de músicas do Hillsong United é o básico de qualquer ministério/grupo/banda de louvor. Se você ainda não canta nenhuma (tsc,tsc,tsc) você deve pegar “emprestado” alguma bem metrificada versão tupiniquim inspirada nos cancioneiros australianos.

Todos os dias ore agradecendo à Igreja Renascer e aos exemplares líderes por terem nos apresentado à esta cultura evangélica americanizada que tanto nos apraz e preenche. Só para refrescar a memória, eis uma listinha de termos provindos da mente astuta e criativa de Apóstolo Eu Te Amo Estevam e de sua esposa Bispa Linda Hernandes: Gospel Records, SOS da Vida, Praise Machine, Renascer Praise, Gospel FM, Manchete Gospel, Gospel Clip, Rede Gospel, iGospel. Ufa!

Claro que a habilidade linguística desse casal não se limita ao domínio do English. É preciso lembrar que eles inovaram até na inclusão de novas palavras à nossa língua, como é o caso de “bispa”, nunca dicionarizada. É deles também a especial habilidade de resignificar antigos termos como “apóstolo”. Mas isto é assunto para outra dica.

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Dica 9: Manipular números

R7 suspeito de manipular números Uma técnica amplamente aperfeiçoada entre os cristãos é a manipulação de números e estatísticas. Hoje o Cristianismo Xique ensinará esta arte para que você saia do infernal vermelho e alcance o paradisíaco azul.

No caso de eventos:

Nos eventos cristãos achamos a melhor oportunidade para ‘trabalhar’ com os números de modo criativo. Se as tais sacras agremiações forem beneficentes, a arrecadação de alimentos divulgada deverá ultrapassar a quantidade do estoque da Companhia Brasileira de Distribuição, vulgarmente conhecida como “Grupo Pão de Açúcar”. Se não forem beneficentes, o destaque deverá ser dado ao numeroso grupo de cristãos que compareceu ao local. Para a digna propagação das boas velhas novas, recursos não deverão ser poupados: imagens aéreas, fotografias, depoimentos e venda de camisetas com o dizer “Eu fui na/no [substitua com o nome do evento]”.

No caso dos dízimos e ofertas:

Para fim de incentivo ao aumento das doações, uma estratégia oposta deverá ser usada para dízimos e ofertas: minimização dos números. O pastor deverá destacar a membresia de 1000 e poucas pessoas e depois mostrar a ‘insignificante’ quantia doada pelos insensíveis sócios participantes da comunidade. Use o datashow para a exibição de planilhas confusas sobre os gastos mensais, pelos quais a comunidade deverá ser culpada, e depois mostre uma simulação, com gráficos bem elaborados, sobre a previsão de arrecadação que a igreja alcançaria se os membros contribuíssem com os obrigatórios 10% mensais que é do Senhor por direito.

No caso de vendagem de discos:

É meio difícil manipular estes números, mas para tudo há uma solução. Mesmo que o setor de música gospel fature bilhões, a classe injustiçada das gravadoras deverá reclamar seus direitos alegando que a venda mensal de 400 mil cópias da Aline Barros seria superior, se os cristãos não fossem levados pelo sujo terrível e abominável pecado da pirataria, que garantirá lugar no inferno para 90% dos cristãos desonestos dessa nação que negam o salário digno a trabalhadores como Arolde de Oliveira, sua filha de voz singular, Oficina G3, Silas Malafaia e Diante do Trono.

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Dica 6: Teologia gringa é melhor (Parte 1)

Joyce Meyer - Eat Cookies Buy Shoes Uma das marcas de um bom cristão está no conteúdo cultural que ele consome. Você nunca deve achar um filme bom, se neste filme não houver alguma metáfora implícita da crucificação. Às vezes, é suficiente que este filme tenha na trilha sonora algum nome famoso da CCM. Vale Michael W Smith, Amy Grant ou, entre os mais modernos, Switchfoot.

Mas não se engane, o que há de melhor da indústria cultural, o mais refinado da irmandade, está na teologia dos gringos, e não é qualquer gringo: tem que ser americano. A nação estadunidense produz hoje a nata do conhecimento teológico que tanto beneficia a nossa latina nação. E para não errar nos comentários pontuais da escola dominical, aqui vai uma listinha de todos os nomes que você precisa saber pra fazer bonito nas suas colocações:

  • Max Lucado: o mais amado dos escritores cristãos americanos. Foi um grande promotor da guerra americana ao “terror” e apoiador do piedoso presidente George W. Bush nas sensatas decisões do estadista. A literatura deste ícone habita uma fronteira entre a autoajuda e a literatura cristã, sendo que a primeira ideologia predomina. Em seus livros, Lucado explora as metáforas de modo singular: um pedaço de madeira pode representar a vida eterna e um pézinho de coentro a multiforme graça.
  • Benny Hinn (exceção não-americana): pouco se sabe sobre a literatura desse Elias contemporâneo. Contudo, Bom dia Espírito Santo, obra prima, é um livro que será citado nas rodinhas de reuniões caseiras, então é bom tê-lo na ponta da língua. Além de ser muito popular, este título pode ser comprado em qualquer lugar, inclusive nos catálogos da sua revendedora Avon. Este pastor (ou entidade inrotulável) não se limita à atividades literárias, mas exploraremos suas habilidades sobrenaturais em outros comentários desse espaço futuramente.
  • Joyce Mayer: diva da teologia gringa com tudo o que lhe é particular hiperbolizado com bom gosto e brio. Meyer é hoje uma das entidades cristãs mais prolixas: os numerosos lançamentos de livro dessa senhora supera até mesmo a quantidade de posts que aparecem no Pavablog diariamente. De dona de casa frustrada e de pouca beleza, Joyce Meyer tornou-se uma espécie de Paulo Coelho gospel que habita as prateleiras das livrarias cristãs de modo onipresente. Sorte nossa, né? E aguardem: o novo livro dela já está a caminho de nossas santas livrarias da Conde de Sarzedas: Eat the cookie, buy the shoes (Coma o biscotinho, compre os sapatos) está no forno para encher nossos olhos da santa teologia Meyerana.

Continuaremos em breve esta série com grandes nomes da teologia norteamericana contemporânea pra deixar você por dentro das novas tendências evangélicas que assolam presenteiam a mente dos pastores brasileiros.

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Dica 3: Comprar na Conde Sarzedas

A Rua Conde de Sarzedas é um protótipo de paraíso na Terra para todo o cristão. Se o sonho evangélico de eleger Anthony Garotinho tivesse dado em alguma coisa, poderíamos imaginar o Brasil como uma ampliação desse reduto de quinquilharia cristã.

Ir à Conde de Sarzedas envolve todo um ritual que será devidamente explicado por esse que vos escreve:

  1. Você precisa ter um conhecido que trabalha na Conde. Pode ser irmão da igreja, amigo, parente, não importa. Este será um recurso para que você barganhe aquele supercd novo do Diante do Trono ou do Renascer Praise que foi lançado na última semana
  2. Visite todas as lojas que puder, mesmo sabendo que você não vai comprar nada. Isso é um jeito de conhecer o mais novo lançamento da Bíblia comentada por algum amigo de Silas Malafaia mais sábio do mundo
  3. Compre pelo menos uma camiseta com alguma mensagem cristã, mesmo sabendo que isso não estava no seu orçamento inicial. Para não errar no culto de domingo à noite: compre alguma daquela formiga assexuada Smilinguido ou alguma que imite a farda do exército com mensagens dizendo que você guerreia por alguma causa do Reino. Nada de discrição nessa hora: quanto maior a estampa, melhor
  4. Prove as gravatinhas: as bancas de gravatas na Conde de Sarzedas são tão abundantes quanto aqueles baciões de linguiça e carne a céu aberto no Largo 13. Você deve prová-las logo no início da Rua, puxando algum assunto com o irmão da loja e comprando a mais baratinha de lembrança para o seu pastor
  5. Prepare-se para ser abordado por alguma profecia: do nada pode pular alguém de alguma loja falando em língua estranhíssimas dizendo que Deus mandou ela dizer alguma coisa pra você. É bom se hidratar porque essas abordagens proféticas costumam demorar pra terminar e, geralmente, acontecem no período da tarde, quando você estará com um monte de bugigangas em sacolas gigantescas num sol de quase 40º
  6. Se você não sabe a música do Régis Danese pedindo pra que alguém entre na casa dele, essa será a oportunidade ideal para decorar tão magnífica letra, já que essa é um trilha sonora onipresente ao longo dessa rua

Ouvindo e aplicando essas dicas você tem tudo pra se dar bem num dia superdivertido de compras na Rua Conde de Sarzedas.

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