Dica 11: Dicionário de léxico belicoso cristão

Poster do filme Cruzada O mundo é um campo de batalha e o Diabo está à espreita logo ali na esquina, portanto seja cuidadoso! A guerra é uma constante na vida de todo cristão e isto já é parte da história da cristandade desde o tempo em que os seguidores do Cristo eram parte daquela turminha dos judeus.

Fique certo de uma coisa: Lúcifer e sua renca de servos não poupará esforços para tirar a paz dos servos fiéis do Senhor, exceto no caso daqueles que regularmente DEVOLVEM seus tributos celestiais de 10%.

Graças à ciência desse cenário perturbador que assola a vida daqueles que aceitaram a salvação celestial, o cristão desenvolveu não só os trejeitos de um soldado que permanece alerta durante as 24 horas do dia: ele também alterou o seu léxico para que Satan não se atreva a pensar que está lidando com um amador.

Contudo, a adoção de um repertório específico de palavras tem dificultado a vida dos cristãos nas suas atividades cotidianas como ir ao supermercado, pedir informações na rua, ou mesmo compreender as matérias de revistas de elaboração simplificada como a Veja. Mas o Cristianismo Xique, pau pra toda obra, vai fazer um dicionariozinho de palavras e expressões que poderá ser usado na vida que, dificultosamente, se abriga nos dias que sucedem e antecedem o sacro domingo (sábado, no caso de adventistas).

  • Batalha: problema do dia a dia (vocábulo utilizado com mais frequência nos 7 dias que antecedem o pagamento mensal dos vencimentos da corporação em que o cristão trabalha)
  • Capitão: Jesus (ou o ministro de louvor)
  • Estratégia: plano de construir uma igreja num bairro mais nobre (ou só uma reforma da salinha para a escola dominical)
  • General: Deus (ou o pastor presidente)
  • Guerra: vida
  • Hino da vitória: referência de Cassiane à performance de Miriam, Moises’ sister, depois que os egípcios foram afundados juntos com Faraó na travessia do Mar Vermelho
  • Inimigo: referência ao Belzebu, Lúcifer, anjo caído (às vezes usado para fazer referência ao motorista que não se porta adequadamente no trânsito ou como simples vocativo dirigido ao vizinho/marido problemático)
  • Investida: alguma situação surpresa que cause desconforto e que será devidamente creditada ao senhor das trevas
  • Luta: problema persistente, dívida no cartão de crédito, doença grave, ou trânsito das sextas feiras
  • Muralha: empecilho corriqueiro, cartão de crédito estourado, crédito não aprovado na loja de varejo, trânsito na rua da igreja no culto de domingo à noite, fila de banco. Geralmente se apresenta na expressão ‘derrubar muralha’
  • Paz: carro novo, passar na FUVEST, dia de pagamento, pós culto do domingo à noite
  • Vencer: crédito aprovado, financiamento da Caixa, mudar da vizinhança para uma região longe da periferia

Se alguma palavra foi injustamente omitida nesse guia, peço encarecidamente que os amigos me avisem desse deslize nos comentários. Dependendo da quantidade de novas palavras sugeridas, um novo vocabulário será publicado.

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Dica 10: Colocar um galã, Padre Fábio de Melo, a serviço da Igreja

Padre Fábio de Melo - As estações da Vida O fracasso da Igreja Católica na captação de novos fiéis já estava a ser divulgado por má línguas a serviço do demônio. Mas, eis que o Senhor surge com uma nova estratégia para calar a boca dos mensageiros do Diabo que vivem a passear em blogues da internet atrás de fofoquinhas do mundo eclesiástico.

Padre Fábio de Melo é um artista do casting da Globo que, gentilmente, dispôs seus dotes físicos para o serviço do reino de Deus nesta impura nação assolada pelos neopentecostais, protestantes, espíritas, ateus, agnósticos e suas respectivas novidades. Além de uma voz de timbre sugestivo, que faz as pernas de qualquer beata tremer de emoção espiritual, o padre Melo ainda foi presenteado com um rostinho à Gianecchini que deve fazer muita inveja ao metrossexual evangélico Marco Feliciano.

Assim como é atraente ao homem um rabo de saia, não deixa de ser interessante à beata o rabo de uma batina que bem vista um formoso sacerdote. É também melhor que as almas venham à igreja por amor que pela dor.

E não pense sua mente impura que a simpatia pelo padre Fábio se limita apenas ao público feminino católico. O representante de Deus de bíceps bem torneados tem sido muito bem recebido pelos intelectuais protestantes, gente ávida pela prosa semipoética que Melo anda a publicar por aí com a parceria de figuras importantíssimas da política como o apresentador de televisão, escritor e secretário de educação, Gabriel Chalita.

Quem pode barrar o todo poderoso nas suas estratégias para salvar sua amada instituição milenar? Se outrora usou uma desfigurada mula para falar ao seu servo, tornará o trabalho de atiçar uma multidão ainda mais fácil com um galã!

Agora mudando de assunto, olhe esse vídeo que nada tem a ver com esta postagem, é bom avisar:

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Dica 9: Manipular números

R7 suspeito de manipular números Uma técnica amplamente aperfeiçoada entre os cristãos é a manipulação de números e estatísticas. Hoje o Cristianismo Xique ensinará esta arte para que você saia do infernal vermelho e alcance o paradisíaco azul.

No caso de eventos:

Nos eventos cristãos achamos a melhor oportunidade para ‘trabalhar’ com os números de modo criativo. Se as tais sacras agremiações forem beneficentes, a arrecadação de alimentos divulgada deverá ultrapassar a quantidade do estoque da Companhia Brasileira de Distribuição, vulgarmente conhecida como “Grupo Pão de Açúcar”. Se não forem beneficentes, o destaque deverá ser dado ao numeroso grupo de cristãos que compareceu ao local. Para a digna propagação das boas velhas novas, recursos não deverão ser poupados: imagens aéreas, fotografias, depoimentos e venda de camisetas com o dizer “Eu fui na/no [substitua com o nome do evento]”.

No caso dos dízimos e ofertas:

Para fim de incentivo ao aumento das doações, uma estratégia oposta deverá ser usada para dízimos e ofertas: minimização dos números. O pastor deverá destacar a membresia de 1000 e poucas pessoas e depois mostrar a ‘insignificante’ quantia doada pelos insensíveis sócios participantes da comunidade. Use o datashow para a exibição de planilhas confusas sobre os gastos mensais, pelos quais a comunidade deverá ser culpada, e depois mostre uma simulação, com gráficos bem elaborados, sobre a previsão de arrecadação que a igreja alcançaria se os membros contribuíssem com os obrigatórios 10% mensais que é do Senhor por direito.

No caso de vendagem de discos:

É meio difícil manipular estes números, mas para tudo há uma solução. Mesmo que o setor de música gospel fature bilhões, a classe injustiçada das gravadoras deverá reclamar seus direitos alegando que a venda mensal de 400 mil cópias da Aline Barros seria superior, se os cristãos não fossem levados pelo sujo terrível e abominável pecado da pirataria, que garantirá lugar no inferno para 90% dos cristãos desonestos dessa nação que negam o salário digno a trabalhadores como Arolde de Oliveira, sua filha de voz singular, Oficina G3, Silas Malafaia e Diante do Trono.

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Dica 8: Teologia gringa é melhor (Parte 2)

Rob Bell Começamos esta série falando da velha guarda da teologia pop dos nossos irmãos norteamericanos. Tivemos o prazer de conhecer as estratégias o estilo dos consagradíssimos nomes de Joyce Meyer, Max Lucado e Benny Hinn. Mas como o Cristianismo Xique não poupa exclui ninguém – independente da raça, denominação, ou idade – falaremos hoje sobre alguns nomes mais novos que apareceram para bagunçar complementar a nossa tão lacunosa teologia latina.

  • Rob Bell: criador de uma série de curta metragens estrelados, escritos, dirigidos e vendidos por ele mesmo  chamado Nooma. O pastor além de se aventurar no terreno dos vídeos – pirateados a torto e a direito aqui no Brasil – resolveu escrever alguns livros. Podemos definir a literatura do criativo pastor como sendo do gênero WTF. Bell passeia num estilo que chove no molhado, mas que ainda assim vende como água. Ao ler uma de suas obras primas o leitor é incomodado por dois sentimentos: um deles é o “que ele quer dizer com isto?” e o outro é “desembucha logo, Rob Bell!”. O seu título mais conhecido é o Velvet Elvis, criteriosamente traduzido pela Editora Vida no Brasil como Repintando a Igreja. Com sua ilimitada criatividade este pastor resolveu também se aventurar pelo terreno do aconselhamento com seu livro de 2009: Drop Like Stars, com conselhos mais práticos (ou não) para os problemas do dia a dia.
  • Mark Driscoll: Com alguns quilos de sabedoria, jeans desbotado, bronzeamento artificial, algumas tatuagens e um modelito apertado o pastor vem conquistando o coração das moças e moços da nossa nação. Driscoll, apesar de acompanhar as últimas tendências da moda, identidade visual e decoração de igreja, não arreda um pé quando o assunto é teologia fundamentalista. Amigão de John Piper, o rapaz chega botando pra quebrar. Usa antigos métodos que vão desde criticar os companheiros que resolvem “inovar” com novas simbioses teológicas até severas críticas à títulos demoníacos da indústria de Hollywood, caso do filme Avatar, abominado pelo modernoso líder da Mars Hill. O título mais conhecido desse pastor é o livro de título intimidador Doctrine: What Christian Should Believe. Para acompanhar as novidades de Driscoll, os seus fãs admiradores podem dar uma olhada no canal dele no YouTube.

Amigos, estamos agora atualizados com tudo aquilo que os grandes astros inventaram de melhor na teologia contemporânea! E o melhor: você não precisa ler nenhum livro deles: só vá ao YouTube ou a algum blog que você já vai ter uma ideia panorâmica daquilo que estas grandes personalidades estão pregando por aí. Lembrem-se: é importante saber o mínimo para que você tenha o que conversar no culto de domingo à noite – evento máximo da cristandade moderna.

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Dica 7: Dar algum parecer teológico sobre desastres naturais

Terremoto do Chile Uma das grandes virtudes dos cristãos é ter sempre alguma opinião bem elaborada e infinta disposição para compartilhá-la de bom grado com a comunidade. Os comentários abrangem os mais variados tópicos: política, futebol, música, televisão, moda e, o principal deles, teologia.

O conhecimento teológico é algo inato dos cristãos, mas nem sempre esta injustiçada classe encontra a oportunidade para compartilhar este saber que adquirem no momento em que levantam a mão e confessam “eu te aceito como meu salvador”.

Entretando, com o advento da internet, a oportunidade para propagar as sensatas colocações sobre os desastres naturais está a disposição de quase todo cristão e o Cristianismo Xique, como sempre, dá a dica para que você acerte sempre nos seus comentários sobre terremotos, tsunamis e tempestades de verão que assolaram sua querida metrópole.

Se você acredita na interferência divina:

  • Reforce seus comentários por meio de versículos que atestem a soberania divina sobre os fenômenos da natureza
  • Cite passagens do antigo testamento em que Deus fez alguma interferência nas forças da natureza
  • O dilúvio deverá ser relembrado em qualquer um destes comentários
  • Reforce a índole pecaminosa da população da região atingida pela catástrofe
  • Explique que o castigo divino foi proporcional ao pecado daquela nação
  • Finalize dizendo que você ora para que o coração de pedra daquela gente se converta após o merecido castigo

Se você não acredita na interferência divina:

  • Reforce a natureza amorosa de Deus por meio de passagens do Novo Testamento
  • Ignore qualquer relato catastrófico do Antigo Testamento, a não ser que seja para depreciar a natureza briguenta dos judeus, aqueles manipuladores da Bíblia
  • Se for texto em blogue, coloque alguma foto de alguma criança africana – ou loira com lágrima nos olhos e a bochecha suja – chorando no meio de escombros para ilustração
  • Afirme categoricamente que, se Deus tivesse alguma relação com tais eventos da natureza ele não seria bom, portanto não seria amoroso e logo não seria Deus (esse encadeamento de ideias é essencial)
  • Apele sempre para as crianças: pessoas sem pecados dignos de punição

E não se esqueça: sobre este tópico de desastres nunca, nunca, nunca diga “eu não sei”. Com estas dicas você sempre terá um comentário teológico pertinente para as rodinhas de discussão pós culto do sagrado culto dominical.

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Dica 6: Teologia gringa é melhor (Parte 1)

Joyce Meyer - Eat Cookies Buy Shoes Uma das marcas de um bom cristão está no conteúdo cultural que ele consome. Você nunca deve achar um filme bom, se neste filme não houver alguma metáfora implícita da crucificação. Às vezes, é suficiente que este filme tenha na trilha sonora algum nome famoso da CCM. Vale Michael W Smith, Amy Grant ou, entre os mais modernos, Switchfoot.

Mas não se engane, o que há de melhor da indústria cultural, o mais refinado da irmandade, está na teologia dos gringos, e não é qualquer gringo: tem que ser americano. A nação estadunidense produz hoje a nata do conhecimento teológico que tanto beneficia a nossa latina nação. E para não errar nos comentários pontuais da escola dominical, aqui vai uma listinha de todos os nomes que você precisa saber pra fazer bonito nas suas colocações:

  • Max Lucado: o mais amado dos escritores cristãos americanos. Foi um grande promotor da guerra americana ao “terror” e apoiador do piedoso presidente George W. Bush nas sensatas decisões do estadista. A literatura deste ícone habita uma fronteira entre a autoajuda e a literatura cristã, sendo que a primeira ideologia predomina. Em seus livros, Lucado explora as metáforas de modo singular: um pedaço de madeira pode representar a vida eterna e um pézinho de coentro a multiforme graça.
  • Benny Hinn (exceção não-americana): pouco se sabe sobre a literatura desse Elias contemporâneo. Contudo, Bom dia Espírito Santo, obra prima, é um livro que será citado nas rodinhas de reuniões caseiras, então é bom tê-lo na ponta da língua. Além de ser muito popular, este título pode ser comprado em qualquer lugar, inclusive nos catálogos da sua revendedora Avon. Este pastor (ou entidade inrotulável) não se limita à atividades literárias, mas exploraremos suas habilidades sobrenaturais em outros comentários desse espaço futuramente.
  • Joyce Mayer: diva da teologia gringa com tudo o que lhe é particular hiperbolizado com bom gosto e brio. Meyer é hoje uma das entidades cristãs mais prolixas: os numerosos lançamentos de livro dessa senhora supera até mesmo a quantidade de posts que aparecem no Pavablog diariamente. De dona de casa frustrada e de pouca beleza, Joyce Meyer tornou-se uma espécie de Paulo Coelho gospel que habita as prateleiras das livrarias cristãs de modo onipresente. Sorte nossa, né? E aguardem: o novo livro dela já está a caminho de nossas santas livrarias da Conde de Sarzedas: Eat the cookie, buy the shoes (Coma o biscotinho, compre os sapatos) está no forno para encher nossos olhos da santa teologia Meyerana.

Continuaremos em breve esta série com grandes nomes da teologia norteamericana contemporânea pra deixar você por dentro das novas tendências evangélicas que assolam presenteiam a mente dos pastores brasileiros.

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